Já adianto que o texto a seguir será considerado enfadonho, ou incomodará algumas pessoas, talvez até ferindo seus sentimentos e crenças. No entanto, depois de muita proteção, resolvi defender a honra de duas coisas muito importantes para a humanidade: a Matemática e a Física, incluindo convenções internacionais que levaram séculos para serem universais, embora alguns países ainda relutem um pouco.
Essa defesa vem em nome de uma de suas unidades de medidas mais maltratadas no cotidiano: o metro.
Sem entrar no mérito de como essa unidade foi concebida e universalizada, vou me ater a um “uso e costume” e seus desdobramentos, que a têm “ofendido” com a expressão “metro linear”. Esse “uso e costume” chegou a tal ponto, em alguns casos, que quando alguém fala metro (de cais, de estrada, de percurso ou afins), alguém pode perguntar: “Linear”?
O “uso e costume” faz com que alguns tendam a duvidar dos outros.
Sou engenheiro de formação e lecionei por cerca de 31 anos matérias ligadas à Engenharia e Arquitetura, além de trabalhar com projetos e obras públicas e privadas.
Ao longo desse tempo, além de ouvir a expressão “metro linear” de colegas e profissionais de vendas e afins, vi planilhas, relatórios e notas de compras utilizando os símbolos “ml” e até “ML”, para se referirem a uma unidade definida pelo Sistema Internacional (SI) como “m” (minúsculo).
Para quem não sabe, “ml” corresponde a mililitro, unidade de volume. “ML”, então… Deixa para lá.
Mas por que “m”.
Voltemos à Matemática e à Física:
Se é que os professores ainda explicam isso nas escolas, numa multiplicação, mantém-se a base e somam-se os expoentes.
No caso de “m”, a notação completa seria m1 (elevado à primeira potência). No entanto, como o expoente 1 não altera o valor, seu uso é dispensado. O “m” corresponde à unidade de medida de uma dimensão, que pode ser comprimento, altura ou largura ou extensão, de forma geral.
Do metro derivam outras unidades, como o metro quadrado e o metro cúbico, por exemplo.
O metro quadrado (m2) corresponde à multiplicação de duas dimensões, ou seja, define áreas. Já o metro cúbico (m3), corresponde à multiplicação de três dimensões, definindo um volume.
Mas isso é gratuito? Não! É matematicamente definido: nesse tipo de multiplicação, mantém-se a base e somam-se os expoentes, m1 x m1 = m(1+1) = m2; e m1 x m1 x m1 = m(1+1+1) = m3.
E essas unidades têm aplicação objetiva: revestimentos são comprados por metro quadrado, concreto, por metro cúbico.
Aí, o “uso e costume” faz com que a pessoa peça “metro” desses produtos e o outro já depreenda que é metro quadrado ou cúbico. Porém, se o cara pede metros para algo vendido ou medido por comprimento, estará arriscando ouvir a pergunta: “Lineares?”, e ainda porem “ml” ou “ML” na nota de venda ou no relatório. Para evitar isso, o orçamento ou a lista de compras já vão com o “ml”, em vez de “m”, tornando o círculo vicioso.
Isso tem valido para quem pede, para quem vende e, infelizmente, até para alguns técnicos.
Esse uso equivocado de medidas, múltiplos e submúltiplos, também vale em outros âmbitos.
Um exemplo é o múltiplo genérico quilo, internacionalmente simbolizado pela letra “k” (minúsculo). Quilo é um múltiplo que corresponde a 1.000 e vale para qualquer unidade: metro, grama, Newton, Pascal, etc.
Daí, temos quilômetro (mil metros), quilograma (mil gramas), etc.
“Quanto você pesa? – 70 quilos”. O “uso e costume” admite que são quilogramas (com “qu” e símbolo kg). Mas se alguém disser que a distância de Santos a São Paulo é de 70 quilos, ninguém vai aceitar. Dois pesos e duas medidas! Xiii, até eu já estou me enrolando!
O problema no falar e escrever, para leigos, pode até ser entendido. No entanto, quando se trata de profissionais, sobretudo em documentos, fica meio chato, para ser condescendente. O problema é que isso está de tal forma arraigado, que quem escreve ou fala corretamente é considerado errado, chato, arrogante ou ET.
Atualmente, tenho visto muita gente utilizar indevidamente o símbolo “K” (maiúsculo), talvez por associar a outros múltiplos como o mega (M, para milhão), tera (T, para bilhão), etc. No caso de informática, esses múltiplos têm um valor um pouco diferente, é verdade.
Se falássemos nos sistemas anteriores ao SI, ainda em uso informal, a grandeza força, que inclui peso, é definida como quilograma-força (grama é unidade de massa, que independe da força da gravidade). Já no SI, a unidade de peso é o Newton (N).
Essas unidades são de uso obrigatório para técnicos. No entanto, a tentativa de universalização de seu uso ainda é complexa.
Nos elevadores, a capacidade de carga sempre foi medida em quantidade de pessoas e peso, prevalecendo este último. Nas plaquinhas aparecia: “Lotação máxima: 8 pessoas ou 560 kg”. Bem, o correto seria kgf (quilograma-força), já que se trata de unidade de peso, e não de massa. O pessoal entendia o “espírito da coisa”, de toda forma.
Aí, mudaram para Newton: “Lotação máxima: 8 pessoas ou 5.600 N”. Aí, deu “nó” de vez.
Tentaram consertar, usando o múltiplo “deca” (símbolo “da”), correspondente a 10 vezes a unidade, o que vale para todas (decâmetro = 10 m, por exemplo), para ficar numericamente equivalente ao kgf: “Lotação máxima: 8 pessoas ou 560 daN”. Isso foi anterior ao filme “Forrest Gump”, mas se fosse posterior, alguém iria perguntar se era uma homenagem ao Tenente Dan, como “N” é para Isaac Newton e “P” para Blaise Pascal. Tudo é possível, quando falta conhecimento ou explicação.
O resultado é que voltaram ao texto inicial.
Em alguns casos, como o de peso, até é compreensível equívocos ou simplificações entre leigos. Entretanto, não se pode admitir isso no âmbito técnico.
Isso também vale para quem substitui a “vírgula”, como separador de valores, por “ponto decimal”, que é utilizado por países que ainda adotam o Sistema Imperial (EUA, Inglaterra, etc.).
Muitos alunos se dão mal quando esquecem disso, ao transcrever resultados de calculadoras digitais para avaliações e relatórios. Em licitações públicas, propostas podem ser impugnadas em função disso!
Bem, quem teve a paciência de ter lido até aqui pode ter revisado alguns conceitos. Porém, não está descartado que eu tenha arranjado mais algumas inimizades, na mesma “medida”.
De fato, é difícil encontrar unidade de pensamento sobre padrões universais em meio a tantos “usos e costumes” e “tradições”. Aliás, medir a extensão disso é bastante complexo, o que não se mede em metros.
Mas, por favor, se for para medir em distâncias, use metro (m) apenas, e não metro “linear”!
Adilson Luiz Gonçalves
Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras